Que é a vida?

Q

Em uma das gavetas da empoeirada escrivaninha, entre velhos e amarelados papéis, descubro duas folhas em cujos versos encontram-se os versos de “Que é a Velhice?”

Manuscrito meu (letra ainda firme e regular), papeis A5 de uma empresa de meu filho Átila – Ordens de Serviço em branco da Art Mídia – e não tive duvidas, são meus os versos, não os das folhas, mas os que neles estão escritos.

Acreditava ainda, ao escrever aqueles versos, ser a velhice a causadora dos males e bens acumulados durante a vida, mas enquanto cortava  ou aumentava para corrigir e rearranjar, dei-me conta de algo mais próximo da verdade: A velhice não é a merecedora de encômios ou vitupérios exarados naquele pequeno poema, pois, togada de Mestra e nomeada como Provedora, é a vida e não a velhice, a fornecedora de  todas as lições, haveres e deveres bons ou maus.

A Vida é que vai entesourando, nos bolsos de todos os que envelhecem, os pirulitos, balas, moedinhas, caixinhas e frascos de remédios e enfurnando, em suas  almas, todos os outros quinhões, desejáveis ou não, portanto, a pergunta é:

Que é a Vida?
É uma grafiteira
que, no corpo humano,
de branco-prata pinta os cabelos,
com amarelo-cera tinge os dentes
e mosqueia na pele, com esmero,
as feias manchas da senilidade.

É escultora
e ao longo do tempo
vai cinzelando, em alto relevo,
“pés-de-galinha”, bolsas palpebrais,
linhas, rugas e marcas de expressão
no complacente mármore da face.

Pesquisadora!
Seus experimentos,
– com substâncias químicas e orgânicas,
mais bactérias, vírus  e micróbios -,
vão enfermando órgãos e sistemas
e enfartando e obstruindo veias.

Neurologista!
Vai fundo na mente.
e… Transfigura os medos em fobias,
cria estranhezas desmemoriando
e é tão exímia em desconscientizar
que, velho, o ser deixa de ser quem é.

Ilusionista
que, com muita astúcia,
pega sonhos, desejos e esperanças,
– aspirações que marcam uma vida -,
mistura tudo e põe numa cartola
de onde retira a desilusão.

Agricultora!
Põe no coração,
sementes de virtudes e ideais,
e colhe, cheias, sacas e mais sacas
de dúvidas, angustias e remorsos
deixando, atrás de si, terra crestada.

Filha do Sol,
Com a Deusa Gaia,
essa artista de muitos talentos
conhecida também por “Existência”,
forja a paz, a resignação,
a prudência e a sabedoria.

e, todavia…
seu feito maior
é premiar a ancianidade
com um sofá e um televisor
e fazer com que o velho acredite
‘que valeu, por tão pouco, viver tanto.

Sobre o autor

Antonio Naddeo

Há 68 anos, em 1950 surgia o ator, moldado até então pelas máquinas em uma indústria de cartonagem. Aos 16 anos passa a ser moldado pelo palco, pelos scripts e por uma incansável vontade de aprender.

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Por Antonio Naddeo

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Antonio Naddeo

Há 68 anos, em 1950 surgia o ator, moldado até então pelas máquinas em uma indústria de cartonagem. Aos 16 anos passa a ser moldado pelo palco, pelos scripts e por uma incansável vontade de aprender.