O passeio

O

Difícil dizer quando foi que Zilah, minha esposa, e eu decidimos morar em Florestal. Viemos para cá em outubro de 95 quando me aposentei. Vim para fazer as três coisas sonhadas: escrever um livro, parar de fumar, e plantar uma horta com muito agrião que, dizem, é muito bom para o pulmão. Parar de fumar parei, mas a horta e o livro estão esperando e, enquanto isso, vou me divertindo descrevendo experiências como a que você, eventual leitor, pode ler abaixo e me tornando, com isso, cada vez mais Florestalense.

O Passeio

Escute o audio: clique aqui.

Andando a passear, sem rumo e sem diretriz, ao passar pelo jardim bem em frente da matriz, sentei-me em um dos bancos que ficam junto a uns arbustos e ouvi, meio querendo e outro tanto sem querer, alguém referir-se a mim. Dizia: – “Aquele velho de barbas brancas e longas, baixinho e rechonchudinho…,” – Vá lá, podia até não ser eu. Barbas, longas, barbas brancas… em Florestal não são muitas, mas consideradas longas as barbas de três, de quatro, ou de mais alguns centímetros, encontraremos, talvez, um magote de velhotes capaz de encher uma Kombi. Todavia a voz pendura não nas barbas, mas no velho, uma outra qualidade chamando-o de “baixinho” e excluindo, com isso, a turma de um dos bancos da hipotética Kombi, a seguir, expulsa outros dizendo: “…e rechonchudinho”.

Eis que a falastrona voz, nessa altura, faz a pausa esperando que os ouvintes localizem o barbudo transformado agora em alvo desses não lisonjeiros dardos.

No grupo, de mim oculto pelo renque de arbustos, instala-se um silêncio indicador de amorfas ou, talvez, inexistentes as reações esperadas e a voz, então, insiste: – “Aquele que trabalhou ou trabalha na TV”.

Eu já não duvido mais. De mim está se falando e, é fácil inferir, a pessoa não conhece, pois não sabe se trabalha ou parou de trabalhar, aquele em quem, em pouco, vai pespegar um boato, ou lançar alguma infâmia, ou grudar um mexerico com cola de “acho que”.

Logo após a informação que me isolou na Kombi, houve um pequeno tumulto com vozes desencontradas tentando fazer-se ouvir – “Ah! já sei!” “É o velho do gol cinza…”, “Eu acho que sei quem é…” “aquele que anda sempre de bermuda e blusa esporte?”, “De bermuda, blusa esporte e um tênis muito encardido?”.

Nessa altura eu já estava não apenas curioso, mas em brasas por saber se airosa ou desairosa seria a referência que a voz, a meu respeito, iria, por fim, fazer quando os “shiii…” e os “psiss…” me fazem compreender que, embora atrás de arbustos, acabo de ser notado por um dos participantes. À duras penas eu finjo não ter ouvido a chalaça, me levanto e continuo o passeio pela praça.

Não fosse interrompida, que informação daria, a meu respeito, a voz? Alguma noticia boa que eu, talvez, ainda não saiba? Fofoca inconsistente? Ou apenas o desejo de ouvir o seu próprio som era a lenha que queimava no fogão daquela voz?

Lamentei. Se apontasse algum defeito, e devo tê-los aos montes, eu logo o consertaria e seria, com certeza, alguém um pouco melhor.

Vou comprar um tênis branco… Ou talvez pintar, de branco, o “encardido” que ainda tenho.

Sobre o autor

Antonio Naddeo

Há 68 anos, em 1950 surgia o ator, moldado até então pelas máquinas em uma indústria de cartonagem. Aos 16 anos passa a ser moldado pelo palco, pelos scripts e por uma incansável vontade de aprender.

Por Antonio Naddeo

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Antonio Naddeo

Há 68 anos, em 1950 surgia o ator, moldado até então pelas máquinas em uma indústria de cartonagem. Aos 16 anos passa a ser moldado pelo palco, pelos scripts e por uma incansável vontade de aprender.